Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense: mais de um século de história e tradição, por Jounimax Junior

Cordeiro construiu, ao longo da sua História, um expressivo legado cultural, entre seus adjetivos está Cidade Exposição e Berço de Artistas. Entre suas instituições mais simbólicas está a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense, cuja trajetória atravessa gerações. Tradicionalmente, o ano de 1905 é apontado como marco de sua origem. Porém, há uma interpretação que indica uma possível descontinuidade entre a banda naquele ano e a que conhecemos hoje, que teria sido fundada em 1926.


Mesmo com dificuldades e contratempos como o rebaixamento a 3º distrito de Cantagalo, em 1892, Cordeiro não deixou de se desenvolver economicamente e socialmente. Ao contrário, as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX são de um povoado em efervescência cultural. Conforme registra a professora e memorialista Madalena Tavares (2022) em seu livro “Registros de Nascimento e Desenvolvimento de Cordeiro”, jornais surgiam para informar, o teatro entretinha o povo, grupos musicais davam musicalidade a vida, escolas surgiam, o cinema se estabelecia, um grêmio literário promovia a leitura e a festa da padroeira reunia a população e visitantes em torno da devoção. É nesse ambiente de intensa vida cultural que emerge a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense em 1905.

Diretoria da S.M. Fraternidade Cordeirense convidando moradores para serem sócios.
Gazeta de Cordeiro número 380. ACERVO: S.M. Fraternidade Cordeirense.

Igor Bonan dos Santos (2025) em seu TCC da graduação em Licenciatura em História pela UNIRIO pelo CEDERJ no polo de Cantagalo, “A Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense, ponto de cultura viva no interior, vista pela Gazeta de Cordeiro entre 1924-1926”, observa que as bandas civis no Brasil no final do império e no início da república ultrapassam o simples entretenimento, são espaços de formação cívica, sociabilidade e construção de identidade coletiva, especialmente nas cidades do interior. As bandas civis eram instituições que organizavam o tempo social. Tocavam nas procissões, nas inaugurações, nos atos cívicos e nas festas populares. Eram expressão sonora e simbólica da própria população. Em Cordeiro não foi diferente.

S.M. Fraternidade Cordeirense provavelmente no carnaval na antiga rua XV. ACERVO: Tadeu Santinho

Como expõem a professora Madalena Tavares (2022) e o musicista Marlon Júlio da Silva (2017), registros indicam que já no final do século XIX havia corporações musicais atuando no município, como a “União Cordeirense”, documentada ainda em 1898 e o “Grupo dos Progressistas”. Já na primeira década do século XX, existem menções a outras agremiações musicais na cidade, a já mencionada e tema do nosso artigo “S.M. Fraternidade Cordeirense” e o “Grupo Musical dos Artistas Homenagem a Anita Garibaldi”.

Comemoração da Libertação dos Escravizados em Cordeiro. Jornal Gazeta de Notícias, em
15 de maio de 1888. ACERVO: Tadeu Santinho

Em 1910, segundo a professora Madalena (2022), um episódio trágico envolvendo a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense e a Banda Anita Garibaldi, marcou a história do então povoado. Durante a Festa de São Sebastião, a tensão entre as duas instituições chegou ao auge, um confronto armado levou à morte de dois homens ligados à Fraternidade Cordeirense. O caso gerou inquérito policial e troca de acusações públicas.

Partitura da Banda Anita Garibaldi. ACERVO: S.M. Fraternidade Cordeirense

Nos anos seguintes ao conflito entre as bandas, parece ter acontecido um esfriamento da tradição musical de Cordeiro. Segundo a memorialista supracitada, Madalena Tavares (2022), houveram tentativas de organização de grupos musicais porém com curta duração e pouca projeção no período de 1913 à 1917. No período de 1917 à 1923, a memorialista afirma que não há registros de instituições musicais atuantes na localidade. Esse período de aparentemente enfraquecimento ajuda a compreender o processo de reorganização jurídica da S.M. Fraternidade Cordeirense que ocorreria anos mais tarde.

Nos anos de 1924 e 1925, passa a aparecer nas notícias do Gazeta de Cordeiro uma entidade denominada Sociedade Musical Cordeirense. Conforme registrado por esse importante semanário local, a corporação participava de eventos no distrito de Cordeiro e em outros municípios.


Recortes e transcrição de trecho da Gazeta de Cordeiro, nº 1407, de 9 de agosto de 1925. Edição do semanário obtida no acervo da Fundação Dom João VI. Acervo pessoal de Jounimax Junior.

A direção da Sociedade Musical Cordeirense, conforme noticiado na Gazeta de Cordeiro, nº 1444, convocou uma assembleia com o objetivo de tratar da então desativada Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense. A matéria informa que, após as deliberações, foi aprovada a reorganização da Fraternidade, adotando-se, com algumas modificações, o estatuto e o regimento interno da Sociedade Musical Cordeirense.

Portanto, segundo as informações do jornal, houve uma fusão das instituições que seguiram juridicamente como S.M. Fraternidade Cordeirense. Essa interpretação difere da apresentada pela professora e memorialista Madalena Tavares (2022), que compreende o episódio como o surgimento de uma nova entidade.


Recortes e transcrição de trecho da Gazeta de Cordeiro, nº 1444, de 2 de maio de 1926. Edição do semanário obtida no acervo da Fundação Dom João VI. Acervo pessoal de Jounimax Junior.

Após a sua reorganização, em 1926, a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense esteve novamente presente na vida social e religiosa de Cordeiro, mas como única banda até os dia de hoje.

A criação e manutenção de sua escola de música foi um elemento fundamental para sua vitalidade ao longo das décadas. Formando crianças, jovens e adultos, a instituição garantiu a renovação de seu corpo musical e o desenvolvimento musical de Cordeiro. Muito além de técnica, a escola transmite identidade e pertencimento. A cada geração, não se renova apenas a banda, mas também o vínculo entre a música e a cidade de Cordeiro.

Um dos exemplos dessa importância é o grupo “Os Matutos”. Segundo Marlon Júlio da Silva (2017), o conjunto foi criado em 2002 na própria sede da SMFC, reunindo jovens que iniciaram sua formação na banda e que, posteriormente, ampliaram sua atuação no cenário musical para além do município.

Hoje a Fraternidade é considerada patrimônio municipal, estadual e condecorada com a medalha Tiradentes na ALERJ. Promovendo ainda mais a cultura cordeirense, ela assumiu “a maternidade” dos blocos carnavalescos Orquestra Fraca e Curva do Rio. Mais do que uma banda, a Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense é uma instituição guardiã de um legado cultural que vem desde o surgimento do povoado, no final do Império, até os dias de hoje. Ela carrega em seu DNA a memória de inúmeras instituições como o Grupo dos Progressistas, a Anita Garibaldi e a S.M. Cordeirense.

Bloco Orquestra Fraca, anos 1970 - Acervo de Tadeu Santinho

Meus agradecimentos ao meu amigo Marcelo Linhares pelo apoio na pesquisa para
o artigo, ao grupo Eu Sou Cordeirense de onde tirei imagens e inspiração, a diretoria
da S.M. Fraternidade Cordeirense e aos citados nas referências pelo trabalho que
desenvolveram.




Jounimax Junior é graduando em Licenciatura em História pela UNIRIO, colaborador na Casa de Euclides da Cunha, professor particular e divulgador científico. Pesquisa e trabalha com foco em História do Brasil, com atenção especial à História da Região, aproximando pesquisa, fontes e memória local do público.


Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem