Cantagalo, uma história em transformação, por Jounimax Junior


A grandeza histórica de Cantagalo é fascinante. Atravessou períodos e ciclos econômicos e esteve relacionada a instituições, eventos e processos nacionais e internacionais. Ouro, café, escravidão, ferrovia e mineração fazem parte do desenvolvimento econômico da região, enquanto Inquisição, devoção, disputas de jurisdição e baronato fazem parte da sua construção sociopolítica.

Celebrando os 169 anos de elevação a cidade e os 212 anos da sua emancipação político-administrativa, com o decreto que erigiu a Villa de São Pedro de Cantagallo, escrevi este artigo para relembrar um pouco dessa história.

O surgimento de Cantagalo 

A extração de ouro nas Minas Gerais modificou profundamente a economia, a sociedade e a política no Brasil Colônia. O Rio de Janeiro ganhou importância, sua localização o tornava estratégico por ser uma conexão entre onde se extraía o ouro, por onde circulavam as pessoas e a saída para a metrópole pelo Atlântico. Em 1763, tornou-se a capital do vice-reino do Brasil. Nesse mesmo período a mineração de ouro na capitania de Minas Gerais já dava sinais de declínio.

Foi nesse contexto que Manuel Henriques, o Mão de Luva, atravessou o Rio Paraíba e entrou nos Sertões de Macacu. A narrativa contada durante muito tempo é um épico romance: um misterioso duque português, escondido nos sertões, explorando ouro clandestinamente para retornar para sua suposta paixão, Dona Maria I. A historiografia traz uma outra versão, dessa vez pautada em documentos e contextualização histórica. Manuel Henriques era nascido em Minas e liderava um grupo que se estabeleceu e se dedicava à exploração ilegal de ouro numa região cuja colonização não era permitida pela Coroa.

Os Sertões de Macacu não eram, porém, uma terra desocupada, sem gente. Indígenas moravam pela região. E com o ouro comerciantes, tropeiros, escravizados, libertos e diversas outras pessoas circulavam e se estabeleciam nessa área fronteiriça entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. O garimpo clandestino criou uma sociedade.

(Imagem: Mão de Luva - Série da Globo)

Durante aproximadamente duas décadas, esse núcleo funcionou à margem do poder colonial. Até que num processo que envolveu disputas entre o vice-rei do Rio de Janeiro e o governador das Minas Gerais, a diocese do Rio de Janeiro e a Inquisição portuguesa, as autoridades tomaram a decisão de invadir.

Em 1786, tropas vindas de Minas Gerais atacaram e desarticularam o bando de Mão de Luva. A partir daí, as autoridades coloniais optaram por ocupar e controlar efetivamente a região. Vieram autoridades, religiosos e novos ocupantes. Essas terras seriam então oficialmente colonizadas.

Foram erguidas o arraial, a paróquia e a freguesia do Santíssimo Sacramento das Novas Minas de Cantagalo.

A economia agrícola e a Criação da Vila

(Imagem Mapa - Fundação Dom João VI)

O ouro já não era abundante nos rios e córregos afluentes do Rio Paraíba do Sul. Mas a terra fértil seria propícia para o desenvolvimento de uma economia agrícola diversificada, combinada ao garimpo. A historiadora Sheila de Castro Faria ressalta que a criação de animais, principalmente porcos, a produção de alimentos, açúcar, café e a extração de ouro se sobrepuseram durante o final do século XVIII e o início do XIX.

Por causa desse desenvolvimento, em 1811, Cantagalo passa a ter por decreto real a Companhia de Ordenanças. O que já demonstra a importância da produção e da sociedade da Freguesia.

O Alvará de 9 de março de 1814, de D. João, Príncipe Regente, manda erigir o arraial das Novas Minas do Cantagallo em vila. A Villa de São Pedro de Cantagallo passa a ter um vasto território que fazia fronteira com as Minas Gerais, Macaé, Campos dos Goytacazes, Santo Antonio de Sá e Magé. Há 212, acontecia o que podemos, considerando as características de cada período histórico, dizer ser o equivalente à emancipação político-administrativa de Cantagalo.

O ciclo do café, a escravidão e a chegada de suíços 

(Fazenda cafeeira do século XIX. Origem e autoria desconhecidas)

É por volta de 1830 que a produção de café voltada para exportação passa a dominar a economia da região. Nesse período a Mata Atlântica é derrubada para dar lugar a produções cafeeiras.

Para essa produção era preciso terra, crédito, animais, ferramentas, transporte e trabalhadores. E, em Cantagalo, grande parte desse trabalho era realizada por pessoas escravizadas.

Os números ajudam a dimensionar a composição dessa sociedade. Em 1872, Cantagalo tinha 29.453 habitantes. Desses, 16.805 eram escravizados. Mais da metade da população do município vivia sob o regime da escravidão.

Por trás da riqueza produzida pelo café havia, portanto, uma sociedade escravista.

Foi também nesse contexto que chegaram os suíços.

(Foto da Família Bon por volta de 1908 na Fazenda Boa Vista, em Campo Alegre. Acervo de Dr. Henrique Bon)

Em 1818, o governo português autorizou a criação da colônia suíça de São João Batista. Os primeiros colonos chegaram entre o final de 1819 e o início de 1820. A fertilidade das terras mais baixas e quentes atraiu a atenção de muitos deles que não se prenderam aos lotes demarcados e desceram. Cantagalo foi um dos principais destinos.

Famílias suíças aparecem na documentação da região já na década de 1820. Algumas entraram para a produção de café e construíram propriedades rurais. E algumas também passaram a possuir escravizados.

Henri Bon é um dos casos mais interessantes, por ser muito bem documentado. Chegou ao Brasil em 1826, estabeleceu-se em Cantagalo e entrou para a economia agrícola.

A história dos imigrantes suíços em Cantagalo, portanto, se confunde com a história do café.

O Baronato do Café 

Enquanto os cafezais avançavam, algumas famílias acumulavam fortunas que também transformariam a paisagem política da região.

Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo, foi um desses homens. Sua riqueza estava ligada à economia cafeeira e à escravidão, e seus negócios, propriedades e interesses alcançavam Cantagalo.

O título de barão diz muito sobre a importância política que o enriquecimento com a terra, o café e a escravidão podia proporcionar. Diz tanto sobre o homem quanto sobre o Brasil Império, que combinava instituições e práticas herdadas do Antigo Regime com as transformações do liberalismo e da economia capitalista.

Ao mesmo tempo em que Antônio Clemente Pinto foi um empreendedor que transformou a nossa região e esteve à frente do início da construção da Estrada de Ferro Cantagallo, também foi um grande traficante de pessoas escravizadas. A honestidade intelectual exige que uma coisa não seja apagada em nome da outra.

A elevação a cidade e a estrada de ferro Cantagallo 

O café transformou Cantagalo em um dos principais centros econômicos do interior fluminense. A riqueza acumulada com a produção cafeeira também aumentou a influência política das elites locais e, em 2 de Outubro de 1857, a antiga Vila de São Pedro de Cantagallo foi elevada à condição de cidade.

A ferrovia veio logo depois. Dias depois, o governo imperial autorizou a organização da Companhia da Estrada de Ferro Cantagallo, empreendimento ligado a Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo. A ideia era facilitar o transporte do café e aproximar as áreas produtoras dos mercados e dos portos.

Com os trilhos, a própria região começou a mudar. Onde hoje está Cordeiro já havia fazendas, mas ainda não existia um povoado. Em 1875, a chegada da ferrovia trouxe uma estação para as terras da Fazenda Nossa Senhora da Piedade, de João dos Santos Cordeiro. Ao redor dela cresceu o povoado que acabaria recebendo o nome de Cordeiro.

Bom Jardim teve trajetória parecida. A ferrovia estimulou o crescimento de um núcleo junto à estação, que pouco a pouco ganhou importância econômica e superou São José do Ribeirão, freguesia da Vila de Nova Friburgo. Em 1892, Bom Jardim se tornou sede municipal e deu seu nome ao novo município.

Enquanto esses lugares cresciam junto aos trilhos, Santo Antônio de Sá fazia o caminho inverso. A antiga vila já vinha perdendo população e importância desde as epidemias conhecidas como “febres de Macacu”. A mudança das rotas de circulação agravou esse processo e, em 1868, a sede municipal foi transferida para Santana de Macacu. Santo Antônio de Sá começou, então, a minguar.

A ferrovia não apenas facilitou o escoamento do café. Ela também ajudou a deslocar o eixo econômico da região, fazendo crescer novos povoados enquanto antigas centralidades perdiam espaço.

A queda do café e crescimento da pecuária leiteira 

O café começou a perder força entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. O desgaste das terras, provocado pelo modelo extensivo de cultivo, reduziu a produtividade de muitas fazendas. Ao mesmo tempo, a pecuária leiteira ganhava espaço. Durante algum tempo, as duas atividades se sobrepuseram, enquanto antigas áreas de café eram gradualmente convertidas em pastagens.

Esse processo também fazia parte de uma transformação maior da economia do interior fluminense. A criação de gado e a produção de leite passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas propriedades rurais, estimulando novas formas de organização dos produtores. Em Cantagalo, surgiram cooperativas em diferentes distritos, como Boa Sorte e Euclidelândia, enquanto Cordeiro e Macuco também se integravam à nova economia leiteira.

Cordeiro se tornou um dos centros dessa atividade. Em 1921, recebeu a primeira Exposição Agropecuária de Cordeiro, que reuniu centenas de animais e contou com a presença do presidente Epitácio Pessoa. A pecuária havia deixado de ser apenas uma alternativa às terras cansadas pelo café e começava a formar uma nova base econômica para a região.

As cimenteiras e o novo ciclo econômico 

(Foto dos anos sessenta nas instalações, ainda em construção, da primeira fábrica de cimento de Cantagalo. - Acervo de Dr Henrique Bon)

A pecuária também começou a perder força ao longo do século XX. A produção de leite mudou, os custos aumentaram e muitas propriedades já não conseguiam manter o mesmo ritmo de antes. As cooperativas, que durante décadas ajudaram os produtores, também passaram por mudanças.

Foi nesse período de transformação da economia rural que o calcário começou a ganhar importância. A pedra já era conhecida na região, mas sua exploração em maior escala criou uma nova atividade econômica. Em 1962, o governo federal autorizou a Companhia de Cimento Portland Rio Negro a explorar calcário em Euclidelândia.

Em 1970, começou a produção industrial de cimento em Cantagalo. A mineração passou, então, a ocupar um espaço cada vez maior na economia local, enquanto a pecuária perdia força. Depois do café e do leite, outra riqueza da região começava a ser explorada. Dessa vez, ela estava debaixo dos pastos.

A história pode e deve ser impulso para um futuro próximo 

Esse foi apenas um pequeno recorte da história de Cantagalo. Em breve, trago aqui na Miramar e nos demais canais de distribuição do Nossa Gente mais conteúdos sobre a História de Cantagalo e dos cantagalenses. Inclusive, um dos nossos compromissos é trazer à luz aqueles que foram deixados de fora da história oficial.

O patrimônio histórico e cultural dessa cidade é gigantesco. Além do seu potencial simbólico, existe também um enorme potencial para a economia criativa, que já podemos ver crescer novamente no município.

Viva Cantagalo! Viva os cantagalenses! Viva a região dos antigos Sertões de Macacu!




Jounimax Junior é graduando em Licenciatura em História pela UNIRIO, colaborador na Casa de Euclides da Cunha, professor particular e divulgador científico. Pesquisa e trabalha com foco em História do Brasil, com atenção especial à História da Região, aproximando pesquisa, fontes e memória local do público.



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