No dia 31 de Dezembro celebramos o aniversário de Cordeiro, emancipado definitivamente de Cantagalo em 1943. Sobre esse processo falaremos em outra ocasião. Neste artigo, nos interessa voltar mais, até a fundação do que viria ser a Cidade Exposição, sobretudo, a distinção entre aquilo que pertence ao campo da lenda e o que pode ser sustentado por evidências históricas.
Presidente da República Getúlio Vargas e comitiva, inaugurando a Exposição Agropecuária de Cordeiro-RJ em 1943. Acervo de Artificium Arte com as mãos
O MITO FUNDADOR
Como cordeirense, desde a infância ouvi a narrativa de que Manoel Rosendo Cordeiro teria sido o fundador do povoado de Cordeiro. Segundo essa tradição, que era ensinada nas escolas, ele teria sido um bandeirante que chegou aqui na região então povoada por coroados e Goytacazes, desbravando o território e se estabelecendo à margem esquerda do Rio Macuco. Ainda conforme essa narrativa, foi em sua fazenda que os imigrantes começaram a se estabelecer e por isso o nome do Bairro Imigração. A ele, portanto, se atribui o papel de primeiro ocupante e de figura central no surgimento de Cordeiro.
OS ANTECEDENTES
A História real passa bem longe disso. O povoado que mais tarde seria o município de Cordeiro surge com a chegada da ferrovia, mas já existiam inúmeras fazendas na região. Com o desbaratar do bando de Mão de Luva, a Coroa portuguesa passa a exercer um controle mais efetivo sobre a região, incentivando a ocupação regular das terras, a abertura de fazendas e a consolidação de caminhos oficiais, se deu dessa forma a criação da freguesia do Santíssimo Sacramento de Cantagalo.
No final do século XVIII a ocupação estava voltada principalmente para a procura de ouro, mas já no início do século XIX, agricultura se torna a principal atividade e o café atraiu os suíços da Vila São João Batista de Nova Friburgo, além de portugueses, açoreanos e brasileiros da Vila de Santo Antônio de Sá e da capitania de Minas Gerais. A área onde hoje está Cordeiro já fazia parte dessa dinâmica agrária, ligada sobretudo à economia do café, integrada às grandes propriedades rurais que orbitavam Cantagalo e Nova Friburgo. Dr. Henrique Bon, em seu livro “Henri Bon: um suíço no Brasil do XIX”, aponta que o biografado se estabeleceu na sesmaria da Penna, onde tinha como “vizinhos” outros suíços, portugueses, brasileiros, como os Macedo, além de outras nacionalidades.
Acervo: swissinfo.ch
O NASCIMENTO DO POVOADO
Segundo a historiadora, Janaína Botelho, a estrada de Ferro de Cantagalo, a quarta ferrovia do Brasil, foi um empreendimento iniciado pelo Barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto. Ele era um dos grandes proprietários de fazendas produtoras de café da região e portanto um dos mais interessados na substituição do transporte feito por tropas de mulas, que era demorado, arriscado e insuficiente.
Trilha da serra da Boa Vista, provavelmente aberta por indígenas da nação Puri. Johann Jacob
Steinmann. Acervo BN.
Em 1858 se iniciou a construção da ferrovia em nossa região. O primeiro trecho ligando Porto das Caixas ao distrito de Cachoeiras de Macacu foi inaugurado em 1860 com a presença do imperador Dom Pedro II. O trecho ligando Cachoeiras a Nova Friburgo só pôde ser concluído em 1873, já sob a liderança de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, conde de Nova Friburgo. A inauguração contou novamente com a presença de sua majestade imperial.
Em 1875, como expõe a professora Madalena Tavares, em seu livro “Registros de Nascimento e Desenvolvimento de Cordeiro”, para que se desse o prosseguimento da ferrovia, os trilhos teriam que passar pelas terras da Fazenda Nossa Senhora da Piedade. Seu proprietário, João dos Santos Cordeiro Júnior, doou verbalmente as terras para a passagem dos trilhos, à esquerda do Rio Macuco. A empresa, após instalar os trilhos, ergueu uma pequena gare a esquerda da ferrovia e, como forma de reconhecimento, gravou o sobrenome do doador.
Ainda segundo a professora Madalena Tavares, quase 5 meses depois, com a
gare já reformada, e já com sinais de povoamento nos seus arredores, no dia
30 de outubro de 1875, se deu a inauguração da ferrovia em Cordeiro. A inauguração da estação se deu somente em 1885, já com a criação do entroncamento que dividia a ferrovia em duas, uma seguindo para Cantagalo e outra para Macuco, seguindo a esquerda do rio de mesmo nome.
Centro de Cordeiro provavelmente no início do século XX. É possível ver o entroncamento. Foto recebida de seguidor. Autoria desconhecida por nós.
O desenvolvimento do povoado ocorreu com a chegada de imigrantes de diversas nacionalidades, que adquiriram terras dos herdeiros de João dos Santos Cordeiro Junior. A condição de ponto de bifurcação da ferrovia favoreceu o crescimento de Cordeiro, que passou a apresentar um comércio pujante já a partir de 1890.
MANOEL ROSENDO CORDEIRO
O bandeirantismo foi um movimento expansionista que saiu de São Paulo em direção ao interior do Brasil do século XVI ao XVIII. Manoel Rosendo Cordeiro, filho de João dos Santos Cordeiro Junior, nasceu provavelmente na Fazenda Nossa Senhora da Piedade, de propriedade dos pais, no século XIX. Portanto, existe um distanciamento muito grande entre ele e o referido movimento.
Representação fotográfica do quadro Domingos Jorge Velho, obra de Benedito Calixto, produzida em 1903. Foto de National Geographic Brasil
Manoel também não foi o fundador de Cordeiro de fato. As terras onde o povoado começou a se formar não foram abertas por ele, mas doadas por seu pai. Ele foi o filho que permaneceu na propriedade da família, vivendo ali até 1904, quando, após a morte de uma de suas filhas, mudou-se para Cantagalo.
Seu nome acabou entrando para a história como “fundador” por outro motivo, foi ele quem assinou, em 1902, os documentos que oficializaram a transferência das terras por onde passaria a Estrada de Ferro Cantagallo para a companhia responsável pela ferrovia. Com o tempo, esse ato passou a ser interpretado como um gesto fundador e posteriormente se criou uma narrativa que não faz sentido com a História da Região, apagando o fato de que o surgimento de Cordeiro está ligado a um processo mais amplo, associado à ferrovia e à dinâmica econômica da região.
Isso não significa que a família Cordeiro não tenha tido um papel fundador no povoado, nem que Manoel Rozendo Cordeiro deixe de ser um personagem relevante na história cordeirense. Ao contrário, até 1909, quando se mudou para o Rio de Janeiro, Manoel participou ativamente do desenvolvimento de Cordeiro e atuou também como uma figura importante para a história de Cantagalo. A professora Madalena Tavares ressalta sua atuação como suplente de juiz federal em Cantagalo, sua participação nos festejos do povoado cordeirense e sua proximidade com outros personagens importantes da história da Cidade Exposição, como João Belliene Salgado e o Dr. Senna
Campos.
ENTRE A LENDA E A HISTÓRIA
Assim como em Cantagalo se construiu uma narrativa lendária em torno de Mão de Luva, em Cordeiro a figura de Manoel Rosendo Cordeiro foi progressivamente convertida em um fundador mítico, investido de atributos heroicos e “civilizadores”. Esse tipo de elaboração simbólica, comum na formação das memórias locais, não empobrece a História da cidade, ao contrário, revela como comunidades explicam sua própria origem, organizam o passado e produzem sentidos sobre si mesmas.
A realidade também não diminui a importância da nossa história. A história de Cordeiro se insere em processos da formação do Brasil, relacionado ao período colonial, ao ciclo do ouro, passando pelo ciclo do café, a colonização suíça, a expansão ferroviária, o Império e a República. É nessa inserção
concreta na história brasileira e mundial, e não na idealização de fundadores,
que reside a importância histórica do nosso município.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 - TAVARES, Madalena. Registros de nascimento e desenvolvimento de
Cordeiro: 1875-1960. 1. ed. Nova Friburgo, RJ: In Media Res, 2022. p. 23-33.
2 - BON, Henrique. Henri Bon: um suíço no Brasil do XIX. 1. ed. [S.l.]: Editora
Cantagalo, 2025.
3 - TV ZOOM. Por Dentro Da História | O Legado Da Estrada De Ferro De
Cantagalo - Nova Friburgo YouTube, 2 de Set. de 2024 Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=4WZX2jwVInw. Acesso em: 16 jan. 2026
4 - BOTELHO, Janaína. Estrada de Ferro de Cantagalo: impressões de uma
viagem. Serra News RJ, 4 abr. 2024. Disponível em:
Acesso em: 15 jan. 2026.