Santuário do Santíssimo Sacramento em Cantagalo: como a Inquisição está na origem dessa história, por Jounimax Junior

Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento. Manhã de Outono - 08/06/2026 - Acervo pessoal

Quem trouxe à tona essa história foi o professor Anderson José Machado de Oliveira, da UNIRIO, coordenador do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação (CMPD) de Cantagalo. Em um capítulo publicado no livro Mão de Luva e as Novas Minas de Cantagalo: ouro, indígenas e conflitos na Capitania do Rio de Janeiro, o historiador apresenta evidências de que um processo da Inquisição, relacionado ao garimpo clandestino de Mão de Luva, pode ter influenciado a criação da Paróquia do Santíssimo Sacramento, hoje Santuário Diocesano de Cantagalo.

O então vereador João Bosco, com Dr. Anderson Oliveira, dra Sheila de Castro Faria e professor Wesley Gonçalves. Acervo: Câmara Municipal de Cantagalo

O DESACATO E O PROCESSO NO SANTO OFÍCIO

No dia 23 de abril de 1780, na freguesia de Maricá, Francisco Pereira Machado apresentou ao vigário local e notário do Santo Ofício, o reverendo Vicente Ferreira de Noronha, uma denúncia de desacato à Eucaristia. Segundo ele, um homem chamado José Gomes carregava no pescoço uma pequena bolsa conhecida como breve, dentro da qual guardava uma partícula de hóstia consagrada e outros objetos sagrados.

Igreja Nossa Senhora do Amparo em Maricá/RJ. Reprodução de Foto do Wikipédia

José Gomes estava hospedado na casa do pai do denunciante, em Maricá, mas residia em Rio de São João, distrito de Cabo Frio, e era natural da freguesia de São Salvador, nos Campos dos Goytacazes. Todas essas localidades pertenciam ao bispado do Rio de Janeiro, embora estivessem espalhadas por diferentes regiões da capitania.

Após a denúncia, o vigário solicitou a prisão do acusado. Com José Gomes detido e na sua presença, apreendeu o breve que ele carregava. Dentro da pequena bolsa encontrou uma partícula de hóstia envolta em algodão, uma oração, um ofício de Santa Bárbara, um pedaço de ferro e um pedaço de pedra. 

Ainda naquele dia, o notário colheu depoimentos para instruir o processo. Quatro dias depois, José Gomes foi transferido para o Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro. 

Segundo Anderson Oliveira, o processo registra que, em 30 de abril de 1780, diante do notário Vicente Ferreira de Noronha e com o depoimento sendo registrado pelo frei Joaquim de Santa Rosa Congonhas, o acusado decidiu confessar. Declarando-se católico e temendo o castigo divino, admitiu que a hóstia era de fato consagrada.

Ao pedir perdão aos religiosos, José Gomes afirmou que havia cometido o ato por influência de dois homens: Agostinho, que também usava o nome Francisco de Paula, e Manoel Henriques, mais conhecido como Mão de Luva de Xopotó. Segundo seu relato, ele havia participado com ambos de expedições de extração de ouro nos sertões da Serra dos Órgãos. Foi ali que teria recebido a orientação de portar um breve contendo uma hóstia consagrada para protegê-lo dos males e perigos encontrados pelo caminho.

A confissão levou à abertura de um Sumário de Culpas no Santo Ofício para investigar a
participação de Manoel Henriques e de Agostinho, ou Francisco de Paula. Enquanto isso, José Gomes foi enviado para Lisboa.

Para Anderson Oliveira, a identificação dos possíveis cúmplices e a ligação deles com o garimpo ajudam a explicar por que o caso ganhou tanta importância. Afinal, a investigação não tratava apenas de um desacato religioso, mas também de personagens associados à exploração clandestina de ouro nos sertões do interior fluminense.

CONJUNTURA ECONÔMICA E POLÍTICO-ADMINISTRATIVA À ÉPOCA

Para compreender esse contexto, é necessário lembrar que naquele período, Portugal e seus domínios ultramarinos passavam por uma série de reformas influenciadas pelo pensamento ilustrado. Embora tenham promovido mudanças administrativas, essas medidas preservaram características centrais do absolutismo português. Entre elas estava o fortalecimento do regalismo, doutrina que ampliava a influência da Coroa sobre assuntos e instituições religiosas, incluindo tribunais como o Santo Ofício.

A exploração do ouro também transformava profundamente a América portuguesa. O crescimento da atividade mineradora de ouro nas Minas Gerais contribuiu para a transferência da capital colonial para o Rio de Janeiro e para a abertura de caminhos destinados ao escoamento do minério.

Nesse cenário, a área que hoje abrange municípios como Cantagalo, Cordeiro, Bom Jardim, Macuco, Duas Barras e Nova Friburgo permanecia oficialmente proibida à ocupação e à exploração econômica. Conhecida como Sertões de Macacu, a região era coberta por matas densas, habitada por indígenas, principalmente Puris e Coroados, e localizada além do Rio Macacu, nos limites da Vila de Santo Antônio de Sá.

A DISPUTA DE JURISDIÇÃO E O PODER RELIGIOSO

À época, a capitania do Rio de Janeiro era governada pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, que tomou posse em 5 de abril de 1779. Pouco antes de sua chegada ao cargo, já circulavam denúncias sobre a existência de um descoberto de ouro nos Sertões de Macacu. Logo após assumir o governo, Vasconcelos recebeu novas informações da Câmara de Santo Antônio de Sá confirmando a exploração clandestina da região. Em 20 de maio de 1779, determinou a abertura de uma devassa para investigar o caso.

O combate ao descoberto, porém, se mostrou mais difícil do que o esperado. Em busca de
informações sobre os responsáveis pelo garimpo, o vice-rei recorreu ao Santo Ofício. Segundo Anderson Oliveira, as investigações eclesiásticas acabaram fornecendo dados valiosos para as autoridades civis. Os depoimentos de José Gomes e os testemunhos reunidos no Sumário de Culpas ajudaram a identificar Manoel Henriques, o Mão de Luva, localizar áreas de exploração e mapear as saídas em direção à capitania de Minas Gerais.

Mesmo que o processo inquisitorial nunca tenha resultado na condenação de Mão de Luva, as informações produzidas durante a investigação foram decisivas para as ações do governo. Para Anderson Oliveira, ainda que não se pudesse dizer que os tribunais eclesiásticos atuassem simplesmente como instrumentos do vice-rei, é difícil ignorar a colaboração que prestaram no combate ao garimpo clandestino. Essa aliança foi favorecida pela boa relação entre Vasconcelos e Sousa e o bispo do Rio de Janeiro.

A primeira tentativa do governante foi de controlar as entradas e saídas do Sertão do Macacu e asfixiar as atividades do bando. Deu errado. O governador passou a defender que se ocupasse a região e se estabelecesse os direitos da coroa. Nesse momento, em 1784, se inicia a comunicação entre Vasconcelos e o governador da capitania de Minas Gerais, Luís da Cunha Menezes. A maneira mais rápida de chegar ao descoberto era atravessando o rio Paraíba na localidade de Porto Novo, na capitania mineira. Mas havia nesse período uma certa indefinição da jurisdição da região e o vice-rei passa a ficar descontente com as atitudes de Cunha Menezes. A disputa entre as capitanias se acirrou com o combate ao bando. Estava claro para Luís Vasconcelos que a entrada e desbaratar do bando não se daria sem a intromissão ou colaboração de Cunha Menezes. O processo de desacato ao Santíssimo Sacramento resolveria o problema do vice-rei de desbaratar o bando e reafirmar
sua jurisdição.

A denúncia e a prisão de José Gomes ocorreram em Maricá. Em seguida, o acusado foi transferido para a cidade do Rio de Janeiro e, posteriormente, enviado para Lisboa. Da mesma forma, o Sumário de Culpas foi instaurado na cidade que era sede tanto do bispado quanto da capitania do Rio de Janeiro. Portanto, para o Santo Ofício, os crimes haviam sido cometidos dentro da jurisdição da diocese fluminense e nela deveriam ser apurados.

Mas a importância do caso não se explicava apenas por questões de jurisdição. A gravidade da acusação estava diretamente ligada ao objeto desacatado. Segundo a doutrina católica da transubstanciação, o pão e o vinho consagrados durante a missa tornam-se substancialmente o corpo e o sangue de Cristo. Apesar das reformas promovidas ao longo do século XVIII, a monarquia portuguesa continuava sendo uma instituição profundamente católica. Nesse contexto, um crime de lesa-majestade divina também podia ser entendido como um crime contra a Coroa.

Dom Edney G. Mattoso na celebração eucarística do dia de Corpus Christi no fechamento do Ano Eucarístico 2014 - 2015 - Acervo: PASCOM do Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento em Cantagalo

Anderson Oliveira destaca que a ofensa ao Santíssimo Sacramento possuía um potencial de desorganização religiosa, social e política. Por isso, era comum que episódios desse tipo fossem seguidos por atos públicos de desagravo e reafirmação da fé.

Nos Sertões de Macacu, onde o descoberto de ouro havia surgido à margem das determinações da Coroa e da Igreja, essa lógica ganhava um significado ainda mais profundo. O território associado ao desacato era também um espaço considerado fora da ordem. A criação de uma paróquia dedicada justamente ao Santíssimo Sacramento pode ser interpretada como um esforço de afirmação da autoridade religiosa e política sobre uma região marcada pela ilegalidade e pela contestação do poder estabelecido.

A OCUPAÇÃO DO DESCOBERTO E A INSTAURAÇÃO DA PARÓQUIA

No dia 18 de abril de 1786, uma expedição partiu de Vila Rica em direção ao descoberto. Em 13 de maio, as tropas da capitania de Minas Gerais desbarataram o bando de Mão de Luva e ocuparam a região. Quase ao mesmo tempo, outra expedição saiu do Rio de Janeiro. Com autorização do bispo, ela levava capelães encarregados de celebrar nos sertões que pertenciam ao bispado fluminense.


Bispo de Nova Friburgo, Dom Edney G. Mattoso aspergindo água benta nos fiéis antes da missa de Corpus Christi em 2015 Acervo: PASCOM Santuário do Santíssimo Sacramento em Cantagalo

Pouco depois da ocupação do descoberto, foi publicada uma portaria determinando a criação de uma paróquia dedicada ao Santíssimo Sacramento. Segundo os indícios disponíveis, a nova freguesia já estava estabelecida em 1787, por ocasião da festa de Corpus Christi, embora ainda não possuísse um templo definitivo.

A documentação preservada permite acompanhar a consolidação da instituição. Em 1789 já existia a fábrica da paróquia, responsável pela sua administração. Em 1802 há notícias de um novo templo e, em 1806, da atuação da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Para Anderson Oliveira, a sequência desses acontecimentos dificilmente pode ser vista
como mera coincidência. O mesmo contexto que levou ao combate ao garimpo clandestino e à ocupação dos Sertões de Macacu também resultou na criação de uma paróquia dedicada justamente ao Santíssimo Sacramento, o objeto central do desacato que mobilizou a ação do Santo Ofício.

Ao longo do século XIX, porém, a memória dessa origem foi sendo gradualmente apagada. Já durante a República, ganhou força a versão romântica de Mão de Luva como um nobre apaixonado, escondendo a relação entre o garimpo clandestino, a Inquisição e a formação da freguesia e paróquia do Santíssimo Sacramento.

Igreja Matriz de Cantagalo antes das reformas da década de 1950. Acervo: Baú do Santuário - Jorge Ferreira

O templo atual foi construído na segunda metade do século XIX, em estilo neoclássico. Além de testemunhar o período de prosperidade trazido pelo café na região, ele também representa a presença histórica da Igreja Católica na formação de Cantagalo.

Em 2015, o então bispo de Nova Friburgo, Dom Edney Gouvêa Mattoso, elevou a matriz à condição de Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento, tornando-o um centro de adoração eucarística e peregrinação para toda a diocese de Nova Friburgo.

Procissão Eucarística pelas ruas de Cantagalo com Bispo de Nova Friburgo no dia de Corpus Christi em 2015 - Acervo: PASCOM Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento em Cantagalo

À luz das pesquisas de Anderson Oliveira, esse gesto ganha um simbolismo ainda maior. O santuário não apenas preserva uma devoção religiosa secular, mas também guarda a memória de acontecimentos que ajudam a explicar a própria origem de Cantagalo e cidades vizinhas: o garimpo ilegal, a ação do Santo Ofício e a afirmação da presença da Coroa e da Igreja nos antigos Sertões de Macacu.


Reitor do Santuário Pe. Higor e coroinhas no aniversário de 5 anos da elevação da Igreja Matriz á Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento em 2020 - Acervo: PASCOM Santuário do Santíssimo Sacramento em Cantagalo








Jounimax Junior é graduando em Licenciatura em História pela UNIRIO, colaborador na Casa de Euclides da Cunha, professor particular e divulgador científico. Pesquisa e trabalha com foco em História do Brasil, com atenção especial à História da Região, aproximando pesquisa, fontes e memória local do público. Host do podcast Nossa Gente e Criador de Conteúdo de História, Ciências no Geral e Cultura.




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